segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Nova Roma Ao Som De Um Stylophone

Silêncio prévio sobre as palavras futuras. As tochas ardem. Um facho trémulo mostra-se na escuridão espreitando as almas que passam. Na penumbra esquelética um vidro espelha um universo ameaçador. As pálpebras ameaçam fechar-se. Levo dentro de mim um império. Uma nova Roma deteriorada. Sou louco. Nada em mim mais persiste. Converso com os cacos do meu intelecto. E danço vertiginoso ao som de um stylophone.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Ausência.

Peço desculpa pela ausência. Tenho-me focado noutras práticas. Voltarei em breve.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Da Arte e Sua Realidade

Ainda existem, na era corrente, indivíduos que se questionam sobre a arte contemporânea e a sua validade. Ora, a arte contemporânea é tão válida como as outras vertentes todas. O problema está no facto do observador apreciar uma obra com a expectativa de uma realidade que não existe.

Tomemos como exemplo uma abstracção com tinta preta. Ela é só isso: uma abstracção com tinta preta. Acontece que muitas pessoas esperam encontrar um significado no resultado da abstracção, o que as leva a um estado de frustração, porque na realidade não existe um significado.

Muitos julgam que a arte é criada especificamente para eles e depois arrependem-se quando entram na galeria e não percebem nada do que estão a ver. O problema é esse. A arte não é feita especialmente para eles e não é suposto sequer tirarem um significado. A arte é só a arte. Tal como a realidade. A realidade é só a realidade. E deve ser experimentada tal como é. Pois a partir do momento em que esperamos uma realidade que não existe, caímos profundamente na desilusão.

Tal como no budismo Zen, quando se come, apenas se come. Quando se anda, apenas se anda. Viver o momento presente. A realidade tal como ela é. Na arte a mesma coisa. Quando apreciamos uma obra, apenas a apreciamos. Pela sua beleza. Pela sua repugnância. Pela sua estética ou ausência da mesma. Pela boa e pela má qualidade. Sem significados extra. Sem complicações.

Experimentem. Vão ver que saem das exposições bem mais aliviados.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Imaculada Concepção.

A phurba is cutting through. The gods shall tremble.

Current 93 - Happy Birthday Pigface Christus



Uma canção de Natal. Boas festas!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Os Artifícios Da Crina De Lume

Tua crina de lume ondulava.
E o calor que emanava
batia-me no rosto,
regava-o de fogo.
E cada chama que tocava no oxigénio,
retornava ao ventre imaculado
entre as virgens do elemento.

No escuro, diabretes dançavam.
E eu perdia o alento.
Que cosmos se ocultava,
que factor alquímico se escondia
na prata da noite,
no firmamento?

Nas lãs da tua crina de fogo cantavam
diabretes bruxos de lume.
E os vultos furtivos mexiam-se
onde a lua não pairava.
Rasgavam no yin
um vórtice de feridas.
E eu bebia profundamente
o que restava de yang.
Pela madrugada só o mar rufava.
Pela manhã a tua crina era grisalha.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O Espólio ou A Memória, Um Conto Sinistro.

Tinha em sua posse um espólio histórico de valor incalculável. No último momento pegou fogo ao lar. Virou costas ao mundo e desapareceu.
Levava na bagagem uma memória. Uma única só memória de toda uma existência em cativeiro na sua própria residência. Uma lembrança de dias enfadonhos repletos de urgentes tarefas e de chuva. Sim. Chovia sempre naquela região. Até há quem diga que o sol nunca ali nascera. Que era só uma luz que pairava.
Ulisses Vieira, homem de certa idade, robusto e com farta barba, coleccionava certos objectos antiquíssimos que não eram para qualquer mão. A importância destes era tal que para os manusear, Ulisses calçava umas luvas brancas, delicadas, com tanto cuidado que só a acção aperfeiçoada de as calçar parecia que repelia todos os germes.
Ora, certa manhã, já as goteiras cantavam, o nosso bem parecido Ulisses acordou com um vazio que nunca tinha experimentado. Não lhe ocorria nada. “Ai meu deus, que tenho eu?”, questionou-se. Sentia-se frio. Sentia-se sem vontade. Percorreu o quarto com o olhar. Os lençóis. A cama. “Ai meu deus que tenho qualquer coisa.”, disse.
A chuva caía que nem um ballet, gota a gota, sinfónicamente atormentando Ulisses Vieira. Desnorteado levantou-se da cama. Lentamente. Confuso. Desceu as escadas rumando à cozinha. Pensou que talvez uma infusão de plantas exóticas, que mantinha preservadas em frascos, o aliviasse deste súbito transtorno.
Ao entrar na cozinha cambaleou. Sentiu uma desolação desconcertante. Apoderou-se dele uma vontade bruta de destruir toda a casa. Dirigiu-se sofregamente para o lavatório arrastando os pés que, naquele momento, lhe pesavam como kilos em excesso.
Vislumbrou o seu reflexo na água da bacia. Estava mais magro. “Ai Jesus, que é hoje que morro. Ai que eu morro!”, dizia desesperado enquanto procurava uma aspirina.
Como devem suspeitar, o seu abrigo era remoto e isolado.  Estava claramente distante de qualquer posto médico. Existia portanto uma certa dificuldade em contactar com um praticante de medicina.
Ulisses correu para a sala desesperado e estagnou. Petrificado a uns metros da sua poltrona de leitura viu um lume. Um grande lume imaginário que consumia toda a casa. Que a triturava, viga a viga, parede a parede, sem deixar sequer um osso.
Foi nesse espasmo de insanidade que retomou forças. Subiu para o quarto, vestiu-se apressado, meteu aquela memória na valise em pele castanha, ateou tudo em labaredas e partiu.
Ulisses estava agora a algumas horas de distância da sua propriedade. Sondou a mala com os seus olhos verdes e posou-a no chão. Sabia que o seu conteúdo o poderia ajudar. Que memória era aquela que levava consigo? A única que no meio de tantos objectos valiosos fora escolhida para transporte? Era um elixir especial. Um elixir que guardava há muitos anos, originário de uma certa selva Africana, que, segundo quem lho tinha oferecido, curava qualquer enfermo dos males mais poderosos. Mas para Ulisses aquele frasco tinha um significado especial. Pois quem lho ofertara tinha sido seu pai nos tempos de infância. E cada vez que aconchegava a vista com o frasco muitos sentimentos emergiam à superfície.
Após uns minutos tomou coragem. Abriu a mala. As mãos tremiam que nem um nove ponto zero na escala de Richter. Pegou no frasco e tirou a rolha como pôde porque vinha desprovido de saca rolhas. Ele sabia que já não tinha nada a perder. Ao jogar o gargalo à boca as suas mãos impregnadas de suor ficticiamente criaram musgo marítimo. O frasco deslizou descontroladamente de seus dedos e estilhaçou-se em mil cacos na vereda desprotegida.
Nunca mais ninguém viu Ulisses Vieira. Homem aparentemente são e coleccionador de artefactos históricamente riquíssimos. Mas não se iludam caros leitores deste conto sinuoso. Pode acontecer a qualquer um…