quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Diário de bordo sobre uma onda estridente

Servia-me a mim mesmo de um vinho tenebroso. Uma vida passada em frente aos espelhos, talvez. Espelhos de quebranto marítimo, espuma intensa e vendavais estruturados. Servia mais vinho. E desmaiava em sequência. "Serve-te", a consciência. E eu bebia cada vez mais.
No plano grotesco eu não era uma multidão gótica. Eu não badalava o sino, as doze horas. Eu era apenas o que restava de um porão vazio. Um porão de pensamentos retratados apenas pelo frio dos mares. Arrastava-me, por fim, para conseguir prever a fúria de um arpão nas costas de uma baleia.
Já com algumas milhas, aquela onda estridente passava. Escrevia os seus gritos no diário de bordo: uma folha em branco para o esquecimento. Apenas podia escrever a eternidade. Apenas podia registar... "Vá lá, serve-te!", a consciência.
Milhas passadas a frio, aquela onda estridente voltava. Os seus gritos, meu deus, encarcerados nos meus ouvidos como se espumassem todas as maresias triturantes. E nesse ruído recalcitrante um paladar distinto a algas surgia nos confins da minha língua.
Por fim terra. E mesmo nesse sólido cortante eu escrevia a eternidade e o esquecimento. Bebia mais. Enchia-me de vinho tenebroso. No dia seguinte voltava ao mar.

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segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Galáxias pretas. Expansão

Num mar de sondas as galáxias pretas expandiam-se à velocidade de um universo. Um bloco sem rosto pairava sobre elas, intermitente.
Observei-as durante algum tempo e percebi que já não nos amáva-mos. Observei-as mais, longamente, e percebi uma península materializada nas rectas espaciais.
O espaço não era a questão. Eu apenas captava, piscar a piscar de olhos, imagens sardónicas do nosso fim.
Armazenadas as memórias nas retinas, os hologramas quebraram arduamente as penínsulas. E dividiram prismas de território, num mar de sondas, em galáxias pretas.

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Dança contemporânea de flores