sábado, 31 de outubro de 2026

Pantomima. Trópicos

Traz-me o teu perfume
com brevidade.
E faz com que se tolhe
na curvatura da geada.

Corro em pantanais desidratados,
onde espero a tua lembrança.

E o teu perfume aninhado,
entre um manto de terra seca
e um sifão de vespas
asiáticas.

Metapsiquismo ventricular

No dobro das fotos
uma cadeia de suposições
intercaladas com um sapato
e uma camisa a secar.

Das trevas, duplas vozes.
Vidas em dobro.
Falsas memórias implantadas.

O carvão arde.
Assas champanhe
na lavareda.
Uma visão isométrica.

Provas de dissuasão/um vulto

Provas de dissuasão
transmitidas, catatónicas,
num velho CRT.

Que sublime lumiar
num offshore amarelo,
bebidas caras e um
Rolex.

Tremias.

Vivias amparado,
sem distinção,
absorto em beirais.
Um botão premido ao acaso
distorcia o teu frágil vulto.

No pial um recorte de jornal.
Um homem embebido em lume
pisava as pedras da calçada.

Detalhe de uma pintura para um futuro distante

Deixarei uma vasta herança
online.
E pagarei os meus impostos.

Quando morrer,
enxuto de lágrimas perpendiculares,
as plantas saberão
onde encontrar-me.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Inércia

Estou a tentar processar o que ocorreu nestas duas últimas semanas. Estou em crer que nada. Têm sido dias de inércia. Tão pouco fui caminhar. No estado desassossegado em que estou, nem sair de casa... Lembro-me que há um mês fui a uma consulta na psicóloga; da viagem aos antípodas que eu fiz - e da sensação algo atribulada que senti depois de semanas imerso: como se a luz da cidade se abrisse em dois. É extraordinário porque o tempo às vezes não é mais estático. Muito singular. Não estou propriamente a divagar, até porque li sobre esse aspecto particular algures. Entretanto, e porque tinha assuntos a tratar, fui no autocarro para o lado mais longe da cidade. Foram provavelmente duas horas de viagem, entre resolver o que havia para resolver, retomar a viagem e voltar para casa. Foi quando me apercebi que estávamos em hora de regressos, mesmo ao final do dia. Eu sentia surpreso o fervilhar da cidade. Sentia, enfim, uma espécie de gozo. Como num carrossel. Cheguei em casa e foi como se tivesse agigantado, tal a benesse das propriedades da luz. Para me afunilar em casa e no escuro. Desde então nada tenho feito. Uma inércia abate-se sobre mim. Em quinze dias encerrado no meu subterrâneo nada de produtivo teve evento.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Pressão bárica

Os teus traços curvos
na mancha de prazer
curva torta.
Arremesso.
Tangente visceral.
 
Que brota da lápide?
 
A chuva negra
socalco diverso
brandindo o quilograma 
de uma válvula
no vapor onde te ocultas.
 
Em 5 minutos
um chá estará pronto.
É preciso cuidar das larvas.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Matyas

São Pedro não tem correspondência com nada neste vasto mundo. É um lugarejo inóspito para os arrabaldes de Braga. No verão, cega. Uma única árvore em redor de cada casa, senão construções arruinadas, telhados e armações sobrepujadas ao longo de uma cangosta. Uma pequena profusão de construção novas ali e acolá. Garagens; fuligem. Não tem fim o reboliço. Benesse neste confim só mesmo quem sobe ao Bom Jesus, pelo tapete de asfalto em contraste com a sombra das árvores através de artérias beatíficas. Mas quem desce, quando volto das caminhadas, sinto um sentimento muito próximo da mágoa. O cruzamento na marginal. O emaranhado de cartazes com motivos políticos; a sinalética em tudo que é sentido. Afasto-me sem ver. 

Estive na biblioteca, onde me acho todas as manhãs. Requisitei a Novela Gráfica de 1984, adaptado e ilustrado por Matyas Namai.

Desenhos muito bem conseguidos, paisagens da cidade traçadas em pormenor. Não se pode querer tudo; há sempre um detalhe menos bom. Sim, recomendo. Adaptação aquém. Fico sem perceber a base do argumento de Matyas, não lesse o livro.