quarta-feira, 1 de julho de 2026

Matyas

São Pedro não tem correspondência com nada neste vasto mundo. É um lugarejo inóspito para os arrabaldes de Braga. No verão, cega. Uma única árvore em redor de cada casa, senão construções arruinadas, telhados e armações sobrepujadas ao longo de uma cangosta. Uma pequena profusão de construção novas ali e acolá. Garagens; fuligem. Não tem fim o reboliço. Benesse neste confim só mesmo quem sobe ao Bom Jesus, pelo tapete de asfalto em contraste com a sombra das árvores através de artérias beatíficas. Mas quem desce, quando volto das caminhadas, sinto um sentimento muito próximo da mágoa. O cruzamento na marginal. O emaranhado de cartazes com motivos políticos; a sinalética em tudo que é sentido. Afasto-me sem ver. 

Estive na biblioteca, onde me acho todas as manhãs. Requisitei a Novela Gráfica de 1984, adaptado e ilustrado por Matyas Namai.

Desenhos muito bem conseguidos, paisagens da cidade traçadas em pormenor. Não se pode querer tudo; há sempre um detalhe menos bom. Sim, recomendo. Adaptação aquém. Fico sem perceber a base do argumento de Matyas, não lesse o livro.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Campo di Marte

Um campo
Marte chega.

Senti que a água
num pranto calculado
me corria nas artérias.

Volumes imensos
siderais
fractura negra
avanços cénicos
pela ombreira da porta.

A porta hermética.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Desporto de inverno

Na estrutura
uma marca epidural
e dentro uma balança mede
opostos

No odor puro
um tríptico de ordenamento
de território e dura-máter 

domingo, 7 de dezembro de 2025

Izu-Bonin-Mariana

Sabes que o peso do mundo
te consome ao descoberto
submetido à pressão
de 10984 metros
um furta-fogo
que aponta
para a imensidão negra
da fronteira convergente

O teu torso um batiscafo
à beira do percipício
estalado pela amarga fossa

Um submarino resvala
para além das Marianas

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Chá de jasmim

Leio os Textos Malditos
do Luiz Pacheco

Um chá de jasmim escorre
refresca-me a garganta
das palavra que não falo

Uma China concebida
através de mesas desinformadas
papéis e lume
textos.

Perco-me por breves
que são os momentos
uma dispersão atávica
num chão imenso de calçada escura. 

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Um ritmo constante onde as palmeiras secavam

Armadilhei os dentes de pregos
para afastar as estrias
de um sonho emergente

Quando finalizava a tarde
um tom laranja enfurecia os meus olhos
uma lágrima rastejava na gravilha.

Agora eu era um metamorfo
um âmago profundamente alterado
um arquétipo sem estrutura
uma mancha de petróleo
onde os pássaros não ousam pousar.

Rio Volga

Quando partias
fingias que voltavas
e nos destroços da tua partida
o olhar fixo dos leões
as malhas do perigo

Quando partias
deixavas só a certeza:
um prédio devoluto
de emoções expressas na carne
e todo aquele frio
o gelo infiltrado nos ossos
vincava com violência
os estilhaços de uma personalidade.