Armadilhei os dentes de pregos
para afastar as estrias
de um sonho emergente
Quando finalizava a tarde
um tom laranja enfurecia os meus olhos
uma lágrima rastejava na gravilha.
Agora eu era um metamorfo
um âmago profundamente alterado
um arquétipo sem estrutura
uma mancha de petróleo
onde os pássaros não ousam pousar.
quinta-feira, 27 de novembro de 2025
Um ritmo constante onde as palmeiras secavam
Rio Volga
Quando partias
fingias que voltavas
e nos destroços da tua partida
o olhar fixo dos leões
as malhas do perigo
Quando partias
deixavas só a certeza:
um prédio devoluto
de emoções expressas na carne
e todo aquele frio
o gelo infiltrado nos ossos
vincava com violência
os estilhaços de uma personalidade.
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
Fotografia semântica
Em torno do sol
um grilhão
Em torno da água
um vidro
Em torno de Júpiter
uma imensidão negra
Fotos inexprimíveis sobre
um canavial em chamas
No começo, uma obra quase divina
No começo havia
indescritíveis formas ternárias
um palimpsesto
um nível fotovoltaico
Na margem estava escrito
que os teus olhos rompiam
o que restava da alvorada
segunda-feira, 4 de agosto de 2025
De uma amargura concreta
Sedento de sangue abri a mala. No interior, em flagrante delito, uma fonte e uma cascata. Penetrações ocultas na noite fendiam muito brancas. Na base do copo um cartão de visita.
Uma forma de apetite
Felinos passeavam nas ruas ondulantes. A cada movimento o céu
rasgava tesouras flamejantes. Uma dor acutilante apoderou-se do
nómada. Na curva uma teta de Vénus esgueirou-se sobre a palanca e
hortas incendiárias absorveram o instinto das garras do animal.
Hoje fazem-se
gravuras. Do ocidente uma nuvem meteórica calcula a mancha repleta
de índices. A cada índice uma movimentação sublime e esmaltada.
“Cracks on the wall”, ouve-se. Parto o que resta de um vaso de
onde saem figuras regenerativas.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2025
Uma orla insalubre
Oceano intransitável
uma orla insalubre
Desperto fixo
atentamente
lagoas opostas
e silos de radioactividade
Nos dentes geriátricos
a absolvição
uma agulha num palheiro de quinquilharias
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