sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Inércia

Estou a tentar processar o que ocorreu nestas duas últimas semanas. Estou em crer que nada. Têm sido dias de inércia. Tão pouco fui caminhar. No estado desassossegado em que estou, nem sair de casa... Lembro-me que há um mês fui a uma consulta na psicóloga; da viagem aos antípodas que eu fiz - e da sensação algo atribulada que senti depois de semanas imerso: como se a luz da cidade se abrisse em dois. É extraordinário porque o tempo às vezes não é mais estático. Muito singular. Não estou propriamente a divagar, até porque li sobre esse aspecto particular algures. Entretanto, e porque tinha assuntos a tratar, fui no autocarro para o lado mais longe da cidade. Foram provavelmente duas horas de viagem, entre resolver o que havia para resolver, retomar a viagem e voltar para casa. Foi quando me apercebi que estávamos em hora de regressos, mesmo ao final do dia. Eu sentia surpreso o fervilhar da cidade. Sentia, enfim, uma espécie de gozo. Como num carrossel. Cheguei em casa e foi como se tivesse agigantado, tal a benesse das propriedades da luz. Para me afunilar em casa e no escuro. Desde então nada tenho feito. Uma inércia abate-se sobre mim. Em quinze dias encerrado no meu subterrâneo nada de produtivo teve evento.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Pressão bárica

Os teus traços curvos
na mancha de prazer
curva torta.
Arremesso.
Tangente visceral.
 
Que brota da lápide?
 
A chuva negra
socalco diverso
brandindo o quilograma 
de uma válvula
no vapor onde te ocultas.
 
Em 5 minutos
um chá estará pronto.
É preciso cuidar das larvas.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Matyas

São Pedro não tem correspondência com nada neste vasto mundo. É um lugarejo inóspito para os arrabaldes de Braga. No verão, cega. Uma única árvore em redor de cada casa, senão construções arruinadas, telhados e armações sobrepujadas ao longo de uma cangosta. Uma pequena profusão de construção novas ali e acolá. Garagens; fuligem. Não tem fim o reboliço. Benesse neste confim só mesmo quem sobe ao Bom Jesus, pelo tapete de asfalto em contraste com a sombra das árvores através de artérias beatíficas. Mas quem desce, quando volto das caminhadas, sinto um sentimento muito próximo da mágoa. O cruzamento na marginal. O emaranhado de cartazes com motivos políticos; a sinalética em tudo que é sentido. Afasto-me sem ver. 

Estive na biblioteca, onde me acho todas as manhãs. Requisitei a Novela Gráfica de 1984, adaptado e ilustrado por Matyas Namai.

Desenhos muito bem conseguidos, paisagens da cidade traçadas em pormenor. Não se pode querer tudo; há sempre um detalhe menos bom. Sim, recomendo. Adaptação aquém. Fico sem perceber a base do argumento de Matyas, não lesse o livro.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Campo di Marte

Um campo
Marte chega.

Senti que a água
num pranto calculado
me corria nas artérias.

Volumes imensos
siderais
fractura negra
avanços cénicos
pela ombreira da porta.

A porta hermética.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Desporto de inverno

Na estrutura
uma marca epidural
e dentro uma balança mede
opostos

No odor puro
um tríptico de ordenamento
de território e dura-máter 

domingo, 7 de dezembro de 2025

Izu-Bonin-Mariana

Sabes que o peso do mundo
te consome ao descoberto
submetido à pressão
de 10984 metros
um furta-fogo
que aponta
para a imensidão negra
da fronteira convergente

O teu torso um batiscafo
à beira do percipício
estalado pela amarga fossa

Um submarino resvala
para além das Marianas

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Chá de jasmim

Leio os Textos Malditos
do Luiz Pacheco

Um chá de jasmim escorre
refresca-me a garganta
das palavra que não falo

Uma China concebida
através de mesas desinformadas
papéis e lume
textos.

Perco-me por breves
que são os momentos
uma dispersão atávica
num chão imenso de calçada escura. 

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Um ritmo constante onde as palmeiras secavam

Armadilhei os dentes de pregos
para afastar as estrias
de um sonho emergente

Quando finalizava a tarde
um tom laranja enfurecia os meus olhos
uma lágrima rastejava na gravilha.

Agora eu era um metamorfo
um âmago profundamente alterado
um arquétipo sem estrutura
uma mancha de petróleo
onde os pássaros não ousam pousar.

Rio Volga

Quando partias
fingias que voltavas
e nos destroços da tua partida
o olhar fixo dos leões
as malhas do perigo

Quando partias
deixavas só a certeza:
um prédio devoluto
de emoções expressas na carne
e todo aquele frio
o gelo infiltrado nos ossos
vincava com violência
os estilhaços de uma personalidade.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Fotografia semântica

Em torno do sol
um grilhão

Em torno da água
um vidro

Em torno de Júpiter
uma imensidão negra

Fotos inexprimíveis sobre
um canavial em chamas

No começo, uma obra quase divina

No começo havia
indescritíveis formas ternárias
um palimpsesto
um nível fotovoltaico

Na margem estava escrito
que os teus olhos rompiam
o que restava da alvorada

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

De uma amargura concreta

Sedento de sangue abri a mala. No interior, em flagrante delito, uma fonte e uma cascata. Penetrações ocultas na noite fendiam muito brancas. Na base do copo um cartão de visita.

Uma forma de apetite

 
Felinos passeavam nas ruas ondulantes. A cada movimento o céu rasgava tesouras flamejantes. Uma dor acutilante apoderou-se do nómada. Na curva uma teta de Vénus esgueirou-se sobre a palanca e hortas incendiárias absorveram o instinto das garras do animal.

Hoje fazem-se gravuras. Do ocidente uma nuvem meteórica calcula a mancha repleta de índices. A cada índice uma movimentação sublime e esmaltada. “Cracks on the wall”, ouve-se. Parto o que resta de um vaso de onde saem figuras regenerativas.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Uma orla insalubre

Oceano intransitável
uma orla insalubre
 
Desperto fixo
atentamente
lagoas opostas
e silos de radioactividade

Nos dentes geriátricos
a absolvição
uma agulha num palheiro de quinquilharias

Terminologia para um simplex. Invólocro convexo

Em tempos bebi
o suco das esferas
e espremi nébulas
de terror

Ao corte as saliências vitais
revolviam seguras os parâmetros
 
Um escafandro geométrico
uma cápsula ad vitam
e ao longe, gigantes de gás
que se dissolviam
em fulgurantes plumas

Fachada equidistante de uma nova arquitectura

Revesar incólume
sobre as palmeiras
e de frente um mato
silencioso

Palmeiras desviadas
uma palma aberta
outra fechada
sobre o quilombo arquitectónico
que veste de seda e geada

Prédios gastos
devoram pastos
vistos da fachada equidistante

Náutica de dois polos entremarés

Diante de mim
três velas içadas
e no navegar sobre térmitas
o barco embriaga-se
de sal
de volumes intermarés

De costa a costa
uma rebentação íngreme
desdobra o sol
onde múltiplas faces se vigiam
faces caleidoscópicas
de outras marés

Dinamite e lâmpadas
outrora fachos
guiam complacentes
os espectros
 
 

Mitologia chinesa: mutações

Que fortunas
que margens se mostram
no I-Ching?

Palíndromo a cada
centímetro quadrado
a cada metro cronometrado
a força do Tao

Evasão turquesa
labareda febril
Fuxi em vapores nefastos

Dos trigramas
fortunas que ostento
retiro virgulas e mutações

Sobre um planalto de astros, uma figura

Não posso ver
as estrelas
nem o que se esconde
no universo
não posso ver outros planetas

Há um fio-consciência
que me impele
a venda cai
e na revelação
obra fictícia do que posso ver

sábado, 4 de maio de 2024

Ordenamento de território astral

Encontrei um deus no microondas
encontrei a tua mão
encontrei tudo menos o universo

Um gajo finge que move a cadeira
e os astros ordenam-se em novas formas sublimes