quarta-feira, 15 de outubro de 2014

As trevas como fonte de criação artística e a importância do mal.

Chove desalmadamente lá fora. O céu nublado lembra as amarguras. Acolhido no silêncio do quarto apercebo-me que gosto de estar sozinho.
Não tenho ódio ao mundo. Não tenho inimizades. Tenho uma vida até bastante agradável e pacífica. Mas por vezes a minha apatia dispara e sinto-me incomodado por ter que partilhar o espaço com outras pessoas. Porém tenho consciência que o problema não provém do mundo. Vem do meu interior.
Quando a mente não está em ordem nem tranquila temos tendência a culpar os outros pela nossa agonia. Quando os nossos problemas se tornam pesados o mundo torna-se insuportável. É importante perceber que isto são processos naturais da nossa mente para não perdermos o controle. Tomar conhecimento do que se passa no nosso interior, analisar, aceitar e deixar partir, ajuda-nos a acalmar os nervos.
Mas o que acontece quando, ao mesmo tempo que a mente acalma, canalizamos essa negatividade para a criação artística?
As minhas temporadas no abismo dão-me murros na criatividade ao ponto de despertar ideias muito boas. Todos os ódios e raivas que sinto encaminham-me para criações artísticas mais profundas. Com uma certa qualidade. É esse o poder das trevas.
Vejamos o caso da poesia. Da mais forte que existe é a poesia trágica, negra, sem esperança. É a que bate mesmo de frente. Que nos agarra pelos colarinhos e nos olha com olhos ameaçadores mas sinceros. De quem nos quer acordar para a realidade chocante que tentamos evitar.
Há uma força nessa obscuridade da existência, nessa negatividade, que permite as criações mais selvagens e libertas. Não quero dizer que o lado positivo e que a alegria e o amor não permita também boas obras de arte. Não é isso. Simplesmente é mais passivo. Mais superficial num sentido geral (pois há obras de amor bem profundas).
O fado nunca seria fado se não fosse a decadência do abismo alcoólico, as tragédias da vida e as noites da faca e do sangue. (Hoje em dia vende-se o fado como uma coisa romântica e de paixões. Mas isso é outro assunto que não pretendo abordar aqui).
Por mais que nos queiramos livrar do mal, ele tem a sua importância. Faz parte do equilíbrio das coisas. O grande problema é que o mal é na maioria das vezes mal aplicado. Isto é, o ser humano usa a sua maldade, por vezes das formas mais atrozes, no prejuízo do próximo. Enquanto que essa maldade deveria primeiro ser estudada para posteriormente ser aplicada em coisas úteis. Há aqui uma certa noção de transformação. Usar o negativo para criar o positivo. Mais uma vez o equilíbrio em jogo. No entanto há que notar que pessoas profundamente más, como no caso dos psicopatas, nunca iriam compreender essa ideia de transformação. Para elas o prejuízo ao próximo é uma forma de prazer e estão-se nas tintas para canalizar o ódio para algo positivo.
Explorar o lado negro da mente permite-nos abrir portas que desconhecemos e que podem dar frutos deliciosos. Mas é necessário achar o equilibrio entre o negativo e o positivo. Ao mínimo descuido a nossa cabeça pode rolar permanentemente para um marasmo de sombras. E ficaremos num tormento sem regresso. O mais importante é não prejudicar ninguém. Os nossos ódios, venenos e frustrações devem ser um acto solitário.

Sem comentários:

Enviar um comentário